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O adversário é você!

Escrito em 17/02/2020
Revista Tudo


Logo nos primeiros dias do ano, fomos brindados com uma escalada de tensão considerável entre Estados Unidos e Irã. A morte, em um ataque cirúrgico americano, do general iraniano Soleimani, deflagrou o temor de uma nova guerra e a possibilidade de uma onda de terror perpetrada por grupos islâmicos extremistas. Houve até quem falasse – de forma precipitada e histérica – na terceira guerra mundial.  

 

O termo árabe jihad significa guerra santa. Traduzida literalmente, a palavra corresponde a esforço. Para os terroristas islâmicos fundamentalistas, varrer do mapa o mundo ocidental judaico-cristão, encabeçado por Estados Unidos e Israel, é o que legitima sua guerra santa.  

 

Mas há um outro significado. E é esse que me interessa. Aqui, o esforço tem um sentido de vencer a si próprio. Um dito sagrado do profeta Maomé revela essa perspectiva. Maomé voltava vitorioso de uma batalha e foi aclamado pelo povo: “Você voltou vencedor da jihad, da guerra”. O profeta respondeu: “Eu voltei da pequena guerra santa, a guerra física, material. Mas o essencial é jihad al-akbar, a grande guerra santa, aquela que todo homem deve travar dentro da sua própria alma, a batalha monumental contra a vaidade, o egoísmo, o orgulho, as paixões”. A verdadeira guerra santa é a interior. 

 

Muitas vezes olhamos para a vida e temos a sensação de sermos guerreiros solitários sem comando num imenso e hostil campo de combate. A cada respiração, o inimigo parece se multiplicar e o medo do confronto é o fiel companheiro que nos resta nas noites de insônia. O outro, não importa quem seja, sempre pode se transformar num amargo oponente. Quem nunca desejou que tal ou qual pessoa evaporasse sem deixar rastros? Que atire a primeira pedra.  

 

O que raramente nos damos conta é de que devemos combater não a pessoa em si, mas o que ela causa internamente em nós. O sofrimento, de fato, está aí.  

Pessoas e situações vêm e vão, nossas fraquezas, carências e paixões permanecem. Encare supostos inimigos como espelhos que refletem emoções, pensamentos e atitudes que podem e devem ser trabalhados.  

 

Muitas vezes, aquilo que reprovamos e repudiamos no outro é exatamente o que carregamos em nossos corações e mentes. Compreender isso é gerar uma consciência e uma força interior que nos permitem lidar com isenção e dignidade com qualquer tipo humano. A peleja está vencida. A recompensa é a compaixão.  

 

Um grande mestre sufi, incomparável na arte do encantamento e hipnose de serpentes ouviu do seu próprio mestre: “Você seria capaz de dominar uma serpente enorme e extremamente forte”. “Sim”. “É só me mostrar onde ela está, que eu a domino”. O seu mestre então falou: “É muito simples. Ela está dentro de você mesmo. São as paixões, vícios e limitações do ego humano. Tem certeza que consegue dominá-la”? 

 

Fernando Vianna é instrutor de Meditação e Revitalização Integral. É consultor de I Ching, palestrante e realiza consultoria e treinamento em aperfeiçoamento pessoal. 

ferseth@gmail.com