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Rick Chesther - O ambulante palestrante.

Escrito em 07/01/2020
Revista Tudo


Foto: Divulgação

Por Mariana Marçal 

 

“Foi importante falar em Harvard? Foi. Mas eu preciso falar para o cara que está no Capão Redondo, para o cara que está na Rocinha, para o cara que está na Mangueira, para as pessoas que estão pelas periferias do Brasil dando tiro uns nos outros e se matando ao invés de mudar a realidade da sua comunidade. Eu preciso falar para a nossa gente que nós não somos uma massa falida”. 
 
Num país tão rico afetado pela falta de oportunidades, fome, miséria e corrupção, é possível sim que tantas pessoas encontrem uma luz no fim do túnel. E essa luz tem nome e sobrenome: Rick Chesther. Ele se apresentou para o mundo por meio de um vídeo que viralizou em poucos dias, ensinando as pessoas a fórmula do empreendedorismo. Coisa simples, que talvez um curso universitário não explicasse com tanta clareza.  
Mineiro de Pitangui, mas radicado no Rio de Janeiro, teve que parar de estudar cedo para ajudar com as despesas da casa. Comeu carne pela primeira vez aos sete anos de idade, quando fez uma horta no quintal de sua casa e passou a vender as verduras. “Eu perguntei para minha mãe o que eu tinha que fazer para ter carne. Ela disse que eu tinha que ter dinheiro e, para ter dinheiro, eu tinha que trabalhar”, conta.  

Fez de quase tudo nessa vida. Foi pedreiro, faxineiro, auxiliar de serviços gerais e vendedor de água na praia, ofício que mudou o rumo de sua vida. Pediu R$10 emprestados a um amigo para comprar água e, pouco tempo depois, já lucrava R$200 por dia pelas praia cariocas. Destemido e quebrando barreiras, deu a dica na internet para quem estava desempregado e sem esperança de vida; foi descoberto por milhares de brasileiros, mas foi Flávio Augusto da Silva, um dos empreendedores mais bem conceituados no Brasil, que enxergou em Rick uma oportunidade; em pouco tempo já estavam juntos, tipo unha e carne, discutindo empreendedorismo de igual para igual e buscando formas de disseminar o tema pelo mundo. Foi garoto propaganda do Banco Santander e, hoje, divide sua história de superação com as pessoas, seja pela internet, seja por meio das mais de vinte palestras que faz por mês. Nós, da Revista TUdo, somos imensamente agradecidos por fazermos parte deste grupo, que teve a honra de escutar um pouco do Rick.   
É inspiração que você quer para começar o ano? 
Então, pega a visão.  

 

 



Foto: Robson Fonseca

Rick, a necessidade fez de você um empreendedor aos sete anos de idade. Você lembra o que passou pela sua cabeça quando resolveu plantar alfaces no quintal de casa para vender?  

Sou filho da necessidade. Agradeço muito as imposições que a vida me colocou e não tive tempo de pensar em outra circunstância a não ser lutar desde cedo. Aos sete anos plantei a primeira horta e sou muito grato por ter encarado a vida de forma diferente. O que passou pela minha cabeça? Até os sete anos de idade eu não conhecia carne e ouvia falar que era muito bom. Eu perguntei para minha mãe o que eu tinha que fazer para ter carne. Ela disse que eu tinha que ter dinheiro e, para ter dinheiro, eu tinha que trabalhar. Mas, eu sabia que ninguém iria me empregar por causa da idade. Então eu pensei: já que ninguém vai me empregar, eu me emprego. E aí, tornei-me meu próprio patrão, fui minha própria alavanca, fui lutar pelo que eu queria, que, naquele dia, era comer carne.  
Consegui plantar minha horta, vender minhas verduras e comer carne.  

 
Até os sete anos de idade eu não conhecia carne e ouvia falar que era muito bom. Eu perguntei para minha mãe o que eu tinha que fazer para ter carne. Ela disse que eu tinha que ter dinheiro e, para ter dinheiro, eu tinha que trabalhar. 

 

No seu Instagram, você se coloca como “mensageiro aprendiz”. Explique! 
Não sou palestrante, escritor, autor, nada disso. Tenho muito medo desses saltos quando nos tornamos pessoas públicas. Faço parte de um espaço muito delicado e abrangente e que facilmente as pessoas se perdem nas próprias vaidades. Tenho mais de um milhão de pessoas que acompanham meu trabalho; falo com vários países todas as segundas-feiras; faço mais de 20 palestras por mês; estou constantemente na mídia e escrevi um dos livros mais vendidos do país. Apesar de tudo isso, não quero me desprender das minhas origens e das minhas raízes. Então, costumo dizer que tenho uma mensagem e coloco à disposição das pessoas. Sou um eterno aprendiz. Não me permito acordar de um tamanho e ir dormir do mesmo tamanho que me levantei. Preciso crescer diariamente.  



Passista da Estação Primeira de Mangueira. O que o Carnaval representa na sua vida? Vamos te ver na avenida em 2020, né? 
Bom, primeiro vamos falar dela… dessa escola de samba que está dentro de um morro na Zona Norte do Rio de Janeiro, que é o Morro da Mangueira, uma comunidade super complexa. A importância da escola de samba para aquela comunidade, durante todo o ano, não caberia nesta entrevista. O que ela representa, a quantidade de emprego que gera, a quantidade de cursos gratuitos ofertados; são coisas que o desfile não mostra; é o carnaval que o público não vê. Ser passista da Mangueira é uma responsabilidade imensurável, uma vez que estamos falando da maior escola de samba do Planeta, com todo o meu respeito às demais.  
Apesar de toda essa correria que é a minha vida, tiro um tempo para estar lá, fazendo o que se espera de um passista, que é dar a vida nos ensaios, respeitar o samba e deixar um legado para as próximas gerações.  
O ano de 2020 será de muita emoção para mim na avenida porque o segundo refrão do samba da Mangueira é “Favela, pega a visão”, onde escutarei uma frase minha sendo cantada por toda a Sapucaí.  

 

Você deve ter a vida corrida. Ainda consegue ler quatro livros por semana? Compartilhe com a gente um livro que tenha lido e gostado.  

Dentro dessa correria, tento priorizar o conhecimento porque acredito que nada custe mais caro ao ser humano do que a falta de conhecimento. Eu me cobro muito para que eu consiga ler bastante. Aproveito meu tempo de deslocamento entre os lugares para ler, senão, escrever o meu segundo livro. A bíblia é o livro que leio com maior frequência. Não estou falando de religião, mas de um livro que nos agrega valores. Li recentemente o Enfodere-se”, o novo livro de Caio Carneiro. Li também “Ponto de Inflexão”, de Flávio Augusto da Silva. Estou lendo agora “Você é do tamanho do seu sonho”, de Cesar Souza.  

 

Você palestrou em Harvard. Como foi ensinar para gringos?  
Não tive isso como um troféu, mas sim como mais uma possibilidade de impactar vidas, em mais um local. Curricularmente, talvez, teve uma importância. Eu já palestrei em todos os continentes e, quanto mais eu viajo para fora do Brasil, mais eu volto com a certeza de que quem precisa, de fato, pegar a visão está aqui, no nosso país. Foi importante falar em Harvard? Foi. Mas eu preciso falar para o cara que está no Capão Redondo, para o cara que está na Rocinha, para o cara que está na Mangueira, para as pessoas que estão pelas periferias do Brasil dando tiro uns nos outros e se matando ao invés de mudar a realidade da sua comunidade. Eu preciso falar para nossa gente que nós não somos uma massa falida. Nós temos os nossos problemas e não dá para tapar o sol com a peneira, mas temos uma terra super fértil, um país que não tem tsunami, maremoto, não temos homem bomba explodindo, então me pergunto: por que não conseguimos fazer com que as coisas evoluam? Se cada brasileiro buscar melhorar um pouco a cada dia, estará mais preparado para lidar com as adversidades da vida e conseguir gerar a sua engrenagem. Há meios de avançarmos.  



Foto: Daniela Fernandes


Foto: Jornalista e colaboradora da Tudo, Mariana Marçal com o entrevistado Rick Chester

Fale um pouco do conteúdo do seu livro “Pega a Visão”.   
É o livro mais simples do mundo e gostoso de ler. Eu costumo dizer que a história do povo brasileiro é muito igual, o que muda é o que cada um fez com os problemas que apareceram. No livro, eu mostro uma história comum, como a maioria do nosso povo, e conto o que fiz quando as adversidades surgiram.  
 

Um ídolo?  
Meu pai.  

 
Uma inspiração? 
Meu pai.  
Abaixo de Deus é o homem que reúne tudo aquilo que eu espero de um ser humano.  
Meu pai. Meu Pai.  
 
Alguma dica porreta de empreendedorismo para 2020? 
A dica mais simples e mais assertiva que posso dar para qualquer pessoa, e que serve tanto para o empreendedorismo ou outra área, é que existem duas coisas que conduz a pessoa ao sucesso, e se aplicadas têm um poder ímpar: a primeira coisa é: nunca desistir. A segunda coisa é: nunca se esqueça da primeira. O restante é consequência disso.  

 

Falando em 2020, o que você vai aprontar de bom no ano que vem? Compartilhe projetos, trabalhos, sonhos, etc.  
É um ano que vou dar continuidade em tudo o que já venho fazendo. Algumas publicidades devem surgir, vem trabalho novo por aí.  
O meu segundo livro deve chegar ainda no primeiro semestre, pois já estou em processo de conclusão.  

 

Você esteve em Cotia palestrando para centenas de pessoas.  

Sim, mas independente de “estar” em Cotia, espero que eu tenha atingido as expectativas do público. O Rick, com um microfone na mão, só quer passar a mensagem de que qualquer pessoa pode chegar em qualquer lugar, inclusive a lugar algum. Eu busco evoluir, mudar e avançar o tempo todo para que eu possa falar de evolução, de mudança e de avanço. Sou alguém lutando, para falar de lutas. Simples assim.    

 

 
Acredito que nada custe mais caro ao ser humano do que a falta de conhecimento 

 

“Está desempregado no Rio de Janeiro? Então faz o seguinte: arrume R$10 emprestado, vá para a Central do Brasil amanhã e compre uma mala de água mineral e meio saco de gelo. Pega tudo e vai para Copacabana, cedo. Lá, você vende uma água a R$4 ou R$5. Vamos considerar que você venda tudo a R$4 e beba duas. São dez águas, R$40 reais. Você investiu R$10, são 300% de lucro.”