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Quando filhos viram pais

Escrito em 08/08/2019
Revista Tudo


Como lidar com a inversão de papéis quando os pais já não se cuidam sozinhos 

Pai sempre tem aquela imagem de proteção, de porto-seguro. E mesmo nas mais diferentes configurações de família que encontramos hoje em dia, a figura paterna é super importante na construção da base familiar. 

A medida que envelhecemos e amadurecemos, entendemos que pai não é super-herói e sim um ser humano, de carne e osso, com falhas, defeitos e erros, como acontece com qualquer um de nós.  E assim como o tempo passa para nós, os filhos, também passa para eles, os pais.  

E chega uma hora em que ao invés de sermos cuidados, temos que cuidar. 

Foi o que aconteceu com a Viviane Siqueira, filha do Sr. Silvino, que foi diagnosticado com Alzheimer 5 anos atrás. Na época, com 31 anos, Viviane largou o emprego para acompanhar o tratamento do pai. Mesmo com mais três irmãs, como ela era solteira e ainda morava com os pais, acabou assumindo a responsabilidade. Até ajustar a medicação e ela começar a fazer efeito nos sintomas apresentados pelo Sr. Silvino, passou-se mais de um ano, com muita agressividade, gritos, e aquela sensação de não reconhecer o pai. 



Com o tempo, Sr. Silvino perdeu aa força muscular e ficou acamado. Foi então que a ficha de Viviane caiu. “Foi ali que percebi que os papéis haviam se invertido. Eu precisava dar banho no meu pai, cuidar das tarefas mais simples que ele já não conseguia fazer sozinho. Foi muito difícil aceitar e entender tudo aquilo.” 

Nesta época Viviane foi aprovada e começou a cursar psicologia. Se dividia entre o cuidado com o pai e a mãe – que também adoecia e era muito afetada por aquela situação – e a faculdade. Logo conseguiu um estágio e foi nesta época que o pai passou a dormir cada vez menos. E então a carga aumentou. “Meu estágio ficava na cidade de Francisco Morato. Eu saía de casa às 4h30, ia para o estágio e depois para a faculdade. Quando chegava em casa, já mais de meia noite, ainda encontrava meu pai sem dormir, precisando dos meus cuidados, uma vez que minha mãe já havia ficado com ele o dia todo”, conta. 



Com muita determinação e a ajuda das pessoas, Viviane concluiu a faculdade. “Meus professores e colegas foram imprescindíveis. Eles sabiam da vida que eu levava e me ajudaram muito! Desde passar a matéria, me ajudar com trabalhos, até fazer prova substituta simplesmente porque eu não havia conseguido fazer a primeira”. 

Viviane se formou no final de 2018 e ao olhar para trás, vê que todo o período da faculdade foi de abdicação. Ela só trabalhava, estudava e cuidava do pai. Logo após pegar o diploma, conseguiu um emprego na sua área e a vida seguiu, sempre com a dedicação integral aos cuidados do pai. 

Em junho deste ano, prestes a completar 84 anos, Sr. Silvino foi internado, já bem fraquinho, e morreu poucos dias depois. Viviane conta que ao saber da notícia um misto de sentimentos a invadiu. “Uma ambivalência de dever cumprido como filha e tristeza porque mesmo ele estando doente, e eu cansada, não me importaria em continuar cuidando dele”. 

Como nada é por acaso, Viviane teve como apoio todo o conhecimento adquirido na faculdade para seguir firme. “Hoje vejo que mesmo com toda a dificuldade, tudo o que aprendi na faculdade me ajudou a lidar com a minha tristeza e frustração”. 

Como a história da Viviane há muitas Brasil afora e nem sempre os filhos têm consciência da sua responsabilidade enquanto cuidadores de pais que já não se viram sozinhos. É preciso muito cuidado e gentileza para assumir, aos poucos, o comando dos cuidados.  Ou seja, não dá, do dia pra noite, você olhar para um idoso e tomar atitudes que o façam se sentir incapaz. A doença, para ele, já é difícil o bastante. E às vezes ele já se sente envergonhado e humilhado por estar naquela situação incapacitante.  Os profissionais recomendam: Cuidado, delicadeza, gentileza e respeito. E acima de tudo, que seja de forma gradual. 



Cuidar também é assumir que precisa de ajuda 

História parecida é da Nilza Viudes, que também precisou reunir muitas forças para assumir os cuidados do seu pai, Sr. Alfredo. Pai de nove filhos, Sr. Alfredo é daqueles cearenses arretados. Criou todos com muita rigidez e pulso firme. Nilza mesmo, uma das mais novas, sofreu na infância e adolescência com a rejeição do pai, que dizia que ela não era filha dele, por motivos que só ele saberia dizer... 

Ficou viúvo aos 56 anos e logo arrumou uma companheira, com quem viveu por mais 20 anos. Porém, aos primeiros sinais de que o Alzheimer havia chegado, esta companheira “devolveu” o marido aos filhos e coube à Nilza a tarefa de hospedar o pai. Já com sintomas da doença e mais a tristeza de ter perdido a companheira, logo ele ficou muito deprimido e Nilza decidiu leva-lo para morar no sítio da família, em Porto Feliz, interior de São Paulo. 

Lá ele ficou por cerca de três anos. Mexia com a terra, cuidava dos bichos, uma vida simples e perto da natureza, como ele sempre gostou. Os filhos sempre o visitavam aos finais de semana. Uns mais, outros menos, mas estavam sempre por ali. Nilza, como é proprietária do sítio, acompanhava mais de perto e foi percebendo o quanto o pai estava cada vez mais debilitado. 

No final do ano passado decidiu que Sr. Alfredo seria melhor cuidado se estivesse em uma clínica para idosos. “Lá eu sabia que ele teria companhia de gente da idade ele, que poderia repetir as muitas histórias que tinha para contar e que seria acompanhado de perto por médicos e enfermeiros”, conta a filha. 

“Não foi uma decisão fácil, a culpa teima em nos assombrar”, confessa. No entanto, ela reconhece o quanto ele está bem cuidado e feliz lá. A clínica fica em Campanha, Minas Gerais, a cerca de 20 minutos de onde mora o filho mais velho do Sr. Alfredo. A família segue revezando as visitas e embora leve um tempinho para se acostumar, o coração fica tranquilo ao saber que o patriarca, hoje com 89 anos,  está sendo bem cuidado. 

E Nilza completa: “Hoje vejo que embora não seja tarefa fácil, cuidar do meu pai foi um presente de Deus pra mim. Para que nos entendêssemos. Para que eu tivesse oportunidade de demonstrar o amor e a gratidão que sinto por ele. E que ele, do seu jeito, pudesse me amar de volta”. 


De fato, culturalmente falando, temos memórias e referências muito ruins de clínicas e casas de repouso para idosos, os chamados asilos. E a decisão de levar um idoso a um local especializado, normalmente, é quando a família chega no limite. A geriatra Mariana Lamussi, em entrevista à TUdo, comenta: “ Isso é ruim para todos os envolvidos. Minha experiência me diz que quando chega a esse ponto, precisamos cuidar do idoso, mas também do cuidador”. Ou seja, mesmo sabendo da necessidade e da urgência de pedir ajuda, as famílias se sentem culpadas e envergonhadas, mas ela esclarece que o que faz as famílias mudarem sua visão e se convencerem da decisão acertada é quando a conversa gira em torno do vínculo. “Nós trabalhamos para manter os vínculos afetivos. É muito triste e desgastante uma pessoa estar com a mãe doente, acamada, difícil de lidar e cuidar. As pessoas não foram preparadas para cuidar de idosos e lidar com todo o resto que acompanha estes cuidados. Não temos essa cultura no Brasil”. Em resumo, levar um idoso para morar numa clínica é seguir amando aquela pessoa, manter as boas recordações, mas entender que um profissional poderá cuidar melhor do que a própria família. 

 

Cuidar como pai, amar como filho 

Seja como for, ou a decisão que a família tomar, fato é que amar um pai nunca deve ser obrigação. E amar exige sim cuidado e nem sempre é tarefa fácil. Talvez o melhor caminho seja entender o ciclo natural da vida, se preparar para a velhice, a nossa e a dos nossos pais, e colecionar muitos bons momentos.  

A terapeuta Priscila Simões, especialista em Constelação Familiar, aconselha que esse cuidado, ainda que pareça invertido, deve ser sempre respeitoso e com muita dignidade. “É preciso sim assumir a responsabilidade de cuidar, mas sempre na condição de filho, respeitando a história daquele pai que está ali, a hierarquia familiar. E que os filhos continuem olhando para os pais com respeito ao espaço que eles têm na família”. Colocando cada um no seu lugar, pai é pai e filho é filho, e entender que o pai precisa de auxílio e amor, a tarefa, certamente, ficará mais simples de ser cumprida.